Soldabilidade não é uma propriedade única do aço, como o limite de escoamento. É a capacidade de um material ser soldado nas condições de fabricação de uma estrutura e funcionar bem em serviço. Um aço pode ter ótima soldabilidade quanto à trinca a quente e ser difícil quanto à trinca a frio. Por isso existem vários ensaios, e cada um responde a uma pergunta diferente.

Este artigo faz parte da série baseada nos capítulos 6 a 8 de Weldability of Steels, de R. D. Stout (Welding Research Council). Os mecanismos que esses ensaios avaliam estão nos artigos sobre trinca a frio, trinca a quente e ZTA.

As famílias de ensaios

Família Pergunta que responde Exemplos Resultado típico
Trinca a frio a ZTA trinca com este hidrogênio, esta restrição e este pré-aquecimento? Tekken, CTS, implante, Lehigh trinca ou não; temperatura crítica de pré-aquecimento; tensão crítica
Trinca a quente o metal de solda ou a ZTA trincam no fim da solidificação? Varestraint, Transvarestraint, ductilidade a quente, ensaios autorrestringidos deformação limiar; comprimento de trincas
Propriedades mecânicas a junta tem resistência, ductilidade e tenacidade? tração, dobramento, Charpy, CTOD MPa; aprovação no dobramento; energia em J
Dureza e microestrutura a ZTA endureceu demais? perfil Vickers, macrografia, micrografia HV máxima; extensão das zonas
Hidrogênio quanto hidrogênio o consumível coloca na solda? ISO 3690, AWS A4.3 ml de H por 100 g de metal depositado
Outros o material resiste a um modo de falha específico? tração na direção da espessura (decoesão lamelar), corrosão, fluência, fadiga conforme o ensaio

A série ISO 17642 padroniza ensaios de trinca a frio e a ISO 17641, ensaios de trinca a quente, em versões autorrestringidas (a própria geometria impõe a restrição) e com carga externa.

Ensaios de trinca a frio

Três corpos de prova em perspectiva: Tekken com chanfro em y e corte mostrando trinca na raiz; implante com pino entalhado e gráfico de tensão contra tempo; CTS com placa aparafusada e filetes de ensaio.
Os três ensaios de trinca a frio mais usados. Todos controlam o hidrogênio, a restrição e o resfriamento para reproduzir o pior caso da junta real.

Tekken (chanfro em y)

Duas chapas são unidas por cordões de restrição nas pontas, e o cordão de ensaio é depositado num chanfro em y no meio. A geometria cria restrição alta e um entalhe na raiz. Depois de 48 h, o corpo de prova é examinado na superfície e em cortes, e calcula-se a porcentagem de trinca. Repetindo o ensaio em várias temperaturas, acha-se o pré-aquecimento mínimo sem trinca. É padronizado pela JIS Z 3158 e é um dos ensaios mais severos e mais usados.

Implante

Um pino cilíndrico com entalhe é colocado num furo de uma chapa, com o topo nivelado à superfície. Um cordão passa por cima, de modo que o entalhe fica na ZTA do pino. Depois que a solda esfria até uma temperatura definida, aplica-se uma carga de tração constante no pino. Variando a carga, acha-se a tensão crítica abaixo da qual o pino não rompe. É um ensaio quantitativo, bom para comparar aços e consumíveis.

CTS (severidade térmica controlada)

Uma placa superior é aparafusada sobre a inferior e presa por filetes de ancoragem. Os filetes de ensaio são feitos com dois ou três caminhos de escoamento de calor, o que define a severidade térmica (TSN). Variando a espessura das placas, varia a velocidade de resfriamento. O resultado é a presença ou ausência de trinca na ZTA dos cortes.

Ensaios de trinca a quente

Ensaio Varestraint: vista lateral do corpo de prova dobrado sobre um bloco curvo durante a soldagem, vista de topo com trincas no metal de solda e na ZTA, e gráfico do comprimento de trincas contra a deformação.
No Varestraint, a deformação é imposta no momento em que o arco passa. O gráfico mostra a deformação limiar, abaixo da qual não há trinca.

No Varestraint, o corpo de prova é soldado por TIG e, no instante em que o arco passa por um ponto, é dobrado sobre um bloco de raio conhecido. A deformação na superfície é aproximadamente ε ≈ t/(2R), em que t é a espessura e R o raio do bloco. Medem-se o comprimento total e o maior comprimento das trincas no metal de solda e na ZTA. Repetindo com raios diferentes, obtém-se a deformação limiar e a curva de suscetibilidade do material.

O Transvarestraint dobra o corpo de prova no sentido transversal ao cordão e é mais sensível à trinca de solidificação no metal de solda. O ensaio de ductilidade a quente, em simulador termomecânico (tipo Gleeble), reproduz o ciclo térmico da ZTA num corpo de prova e mede a ductilidade durante o aquecimento e o resfriamento, o que indica a suscetibilidade à trinca de liquação.

Os ensaios autorrestringidos, como o de filete em T e o de cruz, são mais simples: a própria geometria impõe a restrição. Servem para triagem rápida de consumíveis e procedimentos.

Dureza, tenacidade e hidrogênio

O perfil de dureza Vickers através da junta, pela ISO 9015-1, mostra a dureza máxima da ZTA e é o ensaio mais simples para avaliar o risco de trinca a frio e verificar o efeito do TTAT.

Corte de junta com fila de impressões Vickers e perfil de dureza com pico na ZTA de grãos grosseiros.
O pico de dureza costuma ficar na ZTA de grãos grosseiros, junto à linha de fusão. Valores ilustrativos.

O Charpy com entalhe no metal de solda e na ZTA mede a tenacidade na temperatura de projeto. O CTOD mede a tenacidade à fratura e é usado em estruturas críticas, como plataformas e vasos de parede grossa. O ensaio de hidrogênio difusível (ISO 3690 ou AWS A4.3) mede quanto hidrogênio o consumível coloca na solda e define a escala de hidrogênio usada no cálculo do pré-aquecimento.

Como interpretar os resultados

  • Nenhum ensaio cobre tudo. Escolha o ensaio pelo problema que se quer evitar.
  • Os resultados são comparativos. Eles ordenam materiais, consumíveis e condições. A peça real pode ter restrição, espessura e forma de cordão diferentes.
  • Registre todas as condições: composição do aço, consumível e hidrogênio, aporte, pré-aquecimento, espessura e restrição. Sem isso, o resultado não pode ser comparado.
  • Correlacione com a experiência em serviço. O ensaio só é útil se o que ele mede tem relação com o modo de falha real do equipamento.

Perguntas frequentes

Ensaio de soldabilidade é o mesmo que qualificação de procedimento?

Não. A qualificação (RQPS na ASME IX, por exemplo) prova que um procedimento específico produz uma junta com as propriedades exigidas pelo código. O ensaio de soldabilidade compara materiais, consumíveis e condições quanto a um tipo de problema, como a trinca a frio, e ajuda a definir parâmetros como o pré-aquecimento antes de qualificar.

Qual ensaio usar para definir o pré-aquecimento?

Em geral, ensaios de trinca a frio com restrição alta, como o Tekken (chanfro em y) e o CTS, feitos em várias temperaturas de pré-aquecimento. A menor temperatura sem trinca orienta o procedimento. Para muitos aços, os métodos de cálculo da EN 1011-2 ou do Anexo B da AWS D1.1 já dão uma estimativa segura.

Um material que passou no Varestraint está livre de trinca a quente?

Não necessariamente. O Varestraint classifica materiais e consumíveis pela deformação que eles aguentam no fim da solidificação. Na peça real, a forma do cordão, a restrição e a diluição podem gerar deformações maiores. O resultado serve para comparar e escolher, não como garantia isolada.

Referências

  • STOUT, R. D. et al. Weldability of steels. 4. ed. New York: Welding Research Council, 1987.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 17642: destructive tests on welds in metallic materials — cold cracking tests for weldments — arc welding processes. Geneva: ISO.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 17641: destructive tests on welds in metallic materials — hot cracking tests for weldments — arc welding processes. Geneva: ISO.
  • JAPANESE STANDARDS ASSOCIATION. JIS Z 3158: method of y-groove cracking test. Tokyo: JSA.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 3690: welding and allied processes — determination of hydrogen content in arc weld metal. Geneva: ISO.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 9015-1: destructive tests on welds in metallic materials — hardness testing — part 1: hardness test on arc welded joints. Geneva: ISO.