A trinca a frio, também chamada de trinca induzida por hidrogênio ou trinca retardada, é o problema de soldabilidade mais comum nos aços carbono e de baixa liga. Ela se forma depois que a solda esfriou, quase sempre na zona termicamente afetada (ZTA), e pode aparecer horas ou dias depois do fim da soldagem, quando a peça já passou pela inspeção visual.

Este é o primeiro de uma série baseada nos capítulos 6 a 8 do livro Weldability of Steels, de R. D. Stout, publicado pelo Welding Research Council. Os outros tratam de trinca a quente, da ZTA e dos ensaios de soldabilidade.

Os quatro fatores

Corte de junta soldada com trinca na ZTA sob o cordão e hidrogênio se difundindo, cercado pelos quatro fatores: microestrutura frágil, hidrogênio difusível, tensão de tração e temperatura baixa.
A trinca só aparece quando os quatro fatores estão presentes ao mesmo tempo. Toda medida de prevenção atua em pelo menos um deles.
  1. Microestrutura suscetível. Martensita ou bainita dura na ZTA de grãos grosseiros. Aparece quando o aço tem carbono equivalente alto e a junta esfria rápido.
  2. Hidrogênio difusível. Vem da umidade do revestimento do eletrodo ou do fluxo, de óleo, graxa, tinta e ferrugem na junta, e do ar úmido. O arco dissocia essas fontes e o hidrogênio atômico entra na poça.
  3. Tensão de tração. Tensões residuais da contração da solda, somadas à restrição da junta. Chapas grossas e juntas presas aumentam a tensão.
  4. Temperatura baixa. A trinca se forma perto da temperatura ambiente, abaixo de cerca de 150 a 200 °C. Em temperatura mais alta o hidrogênio escapa com mais facilidade e a martensita ainda não terminou de se formar.

Muitas referências citam só os três primeiros fatores e tratam a temperatura como a condição em que a trinca acontece. O efeito prático é o mesmo.

Onde a trinca aparece

Corte transversal de junta em V com quatro trincas: no pé do cordão, sob o cordão na ZTA, na raiz e no metal de solda.
Locais típicos. A trinca sob o cordão fica dentro da chapa e muitas vezes só aparece no ultrassom ou num corte.
Tipo Onde Por quê
Sob o cordão ZTA de grãos grosseiros, paralela à linha de fusão maior dureza da junta, onde o hidrogênio se acumula
No pé margem do cordão, entrando na ZTA concentração de tensão na transição do reforço
Na raiz primeiro passe entalhe da raiz e passe estreito, que esfria rápido
No metal de solda longitudinal ou transversal ao cordão restrição alta, metal de solda de alta resistência, aço de CE baixo

Temperabilidade e velocidade de resfriamento

O que decide a dureza da ZTA é quão rápido ela esfria na faixa de 800 a 500 °C, onde a austenita se transforma. Esse tempo é o t₈/₅. Quanto mais curto, mais martensita.

Diagrama CCT esquemático com campos de ferrita, perlita e bainita, linha de início da martensita e três curvas de resfriamento: rápida, média e lenta.
Diagrama de resfriamento contínuo (esquemático). O pré-aquecimento e o aporte maior deslocam a curva de resfriamento para a direita e evitam a martensita.

O resfriamento fica mais rápido com chapa grossa, aporte baixo e chapa fria. Fica mais lento com pré-aquecimento, aporte maior e temperatura de interpasse mantida. A composição do aço define a posição das curvas: mais carbono e mais elementos de liga tornam o aço mais temperável, e a martensita se forma mesmo com resfriamento mais lento.

Carbono equivalente: CE, Pcm e CET

O carbono equivalente resume a temperabilidade em um número. Cada fórmula foi desenvolvida para um tipo de aço e um método de cálculo, e as três não são intercambiáveis:

Fórmula Expressão (% em massa) Onde se usa
CE (IIW) C + Mn/6 + (Cr + Mo + V)/5 + (Ni + Cu)/15 EN 1011-2, Método A: aços C-Mn, CE de 0,30 a 0,70
CE (AWS D1.1) C + (Mn + Si)/6 + (Cr + Mo + V)/5 + (Ni + Cu)/15 AWS D1.1, Anexo B, junto com o teor de carbono, para escolher o método
Pcm C + Si/30 + Mn/20 + Cu/20 + Ni/60 + Cr/20 + Mo/15 + V/10 + 5B AWS D1.1, Anexo B: método de controle de hidrogênio, para aços de carbono baixo
CET C + (Mn + Mo)/10 + (Cr + Cu)/20 + Ni/40 EN 1011-2, Método B: aços de baixa liga e alta resistência

Três cuidados práticos da EN 1011-2:

  • Se o certificado só informa carbono e manganês, some 0,03 ao CE calculado, para cobrir os elementos residuais.
  • Em juntas de aços diferentes, use o maior CE.
  • Não converta CET em CE nem o contrário. A norma alerta que as duas fórmulas pesam os elementos de formas bem diferentes.

Hidrogênio: escolha e cuidado com o consumível

A medida mais eficaz contra a trinca a frio é reduzir o hidrogênio que entra na solda. A EN 1011-2 classifica os consumíveis em escalas pelo hidrogênio difusível, medido pela ISO 3690:

Escala Hidrogênio difusível (ml/100 g de metal depositado) Exemplos
A acima de 15 eletrodos rutílicos e celulósicos
B 10 a 15 eletrodos básicos, conforme o fabricante
C 5 a 10 eletrodos básicos, arames tubulares, arco submerso (caso mais comum)
D 3 a 5 consumíveis básicos de baixo hidrogênio bem conservados
E até 3 consumíveis de hidrogênio muito baixo

A AWS D1.1 usa três níveis: H1 (menos de 5 ml/100 g), H2 (menos de 10 ml/100 g) e H3 (hidrogênio não controlado). Segundo o Anexo B, pode-se considerar H1, por exemplo, o eletrodo de baixo hidrogênio retirado de embalagem hermética, seco a 370–430 °C por uma hora e usado em até duas horas, e o processo MAG com arame sólido limpo.

O efeito do hidrogênio é grande. Pela Tabela C.1 da EN 1011-2, um aço com CE 0,49 soldado com aporte de 1,0 kJ/mm dispensa pré-aquecimento até 25 mm de espessura combinada com hidrogênio acima de 15 ml/100 g. Com hidrogênio de até 3 ml/100 g, o limite sobe para 60 mm.

Como calcular o pré-aquecimento

A EN 1011-2 traz dois métodos. O Método A usa o CE e gráficos que cruzam espessura combinada, escala de hidrogênio e aporte. O Método B usa uma fórmula com o CET:

Tp = 697·CET + 160·tanh(d/35) + 62·HD⁰·³⁵ + (53·CET − 32)·Q − 328 (°C)

Nela, d é a espessura da chapa (mm), HD o hidrogênio difusível (ml/100 g) e Q o aporte térmico (kJ/mm). A fórmula vale para CET de 0,2 a 0,5 %, espessura de 10 a 90 mm, HD de 1 a 20 ml/100 g e aporte de 0,5 a 4,0 kJ/mm, em aços com limite de escoamento até 1 000 MPa.

Gráfico do pré-aquecimento calculado pela EN 1011-2 em função da espessura, para CET 0,35 e aporte 1,5 kJ/mm, com curvas para hidrogênio de 2, 5, 10 e 15 ml/100 g.
Exemplo calculado com a fórmula da EN 1011-2. Para 30 mm de espessura, CET 0,35, aporte 1,5 kJ/mm e HD 5 ml/100 g, o pré-aquecimento é de cerca de 116 °C. Com HD 15 ml/100 g, sobe para cerca de 167 °C.

O gráfico mostra três tendências. A espessura pesa muito até cerca de 60 mm e quase nada depois. Mais hidrogênio sempre exige mais pré-aquecimento. Mais aporte permite reduzi-lo. A norma também observa que filetes de um passe têm tensão interna menor e podem ser soldados com pré-aquecimento até cerca de 60 °C mais baixo que juntas de topo. É o fabricante quem decide se aproveita essa margem.

A AWS D1.1 (Anexo B) segue outro caminho. Pelo teor de carbono e pelo CE, o aço é classificado em uma de três zonas. Na zona II, usa-se o controle de dureza da ZTA (350 ou 400 HV) para definir o aporte mínimo em filetes de um passe. Nas zonas I e III, e nas soldas em chanfro da zona II, usa-se o controle de hidrogênio, com um índice de suscetibilidade (12·Pcm + log₁₀H) e o nível de restrição da junta.

Como prevenir

Fator Medidas
Hidrogênio consumível de baixo hidrogênio; secagem e estufa conforme o fabricante; junta limpa e seca; proteção contra umidade
Microestrutura pré-aquecimento e temperatura de interpasse; aporte adequado; cordão de revenimento quando não há TTAT
Tensão sequência de soldagem; menor restrição possível; evitar entalhes na raiz e no pé
Tempo e temperatura pós-aquecimento logo após a soldagem; esperar antes da inspeção final

Quando o risco é alto, a EN 1011-2 recomenda acelerar a saída do hidrogênio com pós-aquecimento: manter a temperatura mínima de interpasse ou elevar a peça a 200–300 °C logo após a soldagem, antes de ela esfriar abaixo do interpasse, por pelo menos 2 h. Para a inspeção final de peças sem tratamento térmico, a norma recomenda esperar, em geral, pelo menos 16 h.

Perguntas frequentes

Por que a trinca a frio aparece horas depois da soldagem?

Porque o hidrogênio continua se difundindo depois que a solda esfria e se acumula nas regiões duras e tensionadas da ZTA. A trinca nasce e cresce aos poucos. Por isso a EN 1011-2 recomenda, em geral, esperar pelo menos 16 h antes da inspeção final de peças soldadas sem tratamento térmico, e mais tempo acima de 50 mm de espessura ou em aços com limite de escoamento acima de 500 MPa.

Carbono equivalente alto sempre exige pré-aquecimento?

Não. A necessidade depende também da espessura combinada da junta, do hidrogênio do consumível e do aporte térmico. Pela Tabela C.1 da EN 1011-2, um aço com CE de 0,43 soldado com hidrogênio de até 5 ml/100 g e aporte de 2,0 kJ/mm dispensa pré-aquecimento até 100 mm de espessura combinada; com hidrogênio acima de 15 ml/100 g, o limite cai para 80 mm.

Posso converter o CET em CE para usar outra tabela?

Não é recomendado. A própria EN 1011-2 alerta que o CE e o CET pesam os elementos de liga de formas bem diferentes. Cada fórmula deve ser usada com o método para o qual foi feita: CE no Método A, CET no Método B, Pcm no método de controle de hidrogênio da AWS D1.1.

Referências

  • STOUT, R. D. et al. Weldability of steels. 4. ed. New York: Welding Research Council, 1987.
  • EUROPEAN COMMITTEE FOR STANDARDIZATION. EN 1011-2:2001+A1:2003: welding — recommendations for welding of metallic materials — part 2: arc welding of ferritic steels. Brussels: CEN, 2003. Anexo C.
  • AMERICAN WELDING SOCIETY. AWS D1.1/D1.1M:2025: structural welding code — steel. Miami: AWS, 2025. Anexo B.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 3690: welding and allied processes — determination of hydrogen content in arc weld metal. Geneva: ISO.
  • KOU, S. Welding metallurgy. 2. ed. Hoboken: Wiley, 2003.